A cultura burocratizou-se de tal forma que nenhuma arte lhe sobrevive. Flácida, de todas as cores, pedante a brilhar na sua esplêndida nudez. Uma selva seca, podada como um jardim francês.
Mas preconizamos que tudo voltará a um princípio. O futuro, meus caros, é neandertal! Espremeremos flores de esteva para pintar bisontes nas ruínas dos arranha-céus, comeremos cães e melancias com as nossas unhas sujas, saberemos mergulhar as mãos no sangue desprovidos de sadismo e morreremos cedo, tesos e magníficos, sem aparelho político, filosófico, artístico que explique a coisa. Seremos só cultura.
A partir da frase proferida por José Rodrigues dos Santos a propósito da morte dos cinco ocupantes do submersível Titan, o espetáculo Boa tarde, morreram todos embrulha-nos num híbrido entre um manifesto autocomiserativo e um stand-up contra a apatia, a favor da purga de uma raiva essencial, impressa em nós pelas várias mediocridades do dia-a-dia.
“A possibilidade de te tornares de um momento para o outro num psicopata, nunca está assim tão longe. É só ceder a um impulso errado. Manteres-te são depende de uma quantidade incalculável de decisões rápidas acertadas… … Devo agarrar na mão da pessoa que acabou de me descrever as suas férias em Bali e enfiá-la numa fritadeira com óleo a ferver? Podia eu acabar de vez com o monólogo incontinente daquele amigo que foi para Copacabana fazer um documentário activista na favela, amputando o meu dedo mindinho?
Mas depois ouves uma voz interior que te diz: Não Andreia! Isso seria muito contraproducente!
O que seria de nós sem esta voz interior!? Eu certamente não estaria aqui, estaria na prisão de Tires a comer bolachas de água e sal e a escrever um romance histórico…
Mas tudo o que na vida comum nos está interdito pelas regras da civilidade e do bom senso, na ficção é adorável. Personagens sanguinários, brutos, porcos e sem escrúpulos, são um verdadeiro sucesso! Não há humor sem malícia.”