Ainda sobre utopia, sabendo a sua impossibilidade visto que xs meus amigxs batalham com o vazio, a sobrevivência capitalista tardia, relações de poder, dependência. Ele cuida de mim – elxs dançam – pintamos os lábios umx dx outrx – ela vai à biblioteca para estar sozinha com os livros – falamos da sensação de desejar ardentemente – falamos de nada parecer comover-nos – esquecemo-nos do prazer da luz do sol? Ela diz que sim e que possivelmente não há maneira de voltar atrás. Abraçamo-nos. Não sinto nada a não ser o meu vício em ti e no prazer de tocar a massa e as texturas do teu corpo. Digo-te que começo a sentir os limites do capitalismo – claro que te ris. Mas sinto-o agora, esmaga, atravessa, fode por, através e com o meu corpo. Isto é um pedido, um choro, uma ode a uma outra vida para nós.
Anita Escorre Branco
Odete
© Alípio Padilha
Dramaturgia, Música & Cenografia: Odete
Maquilhagem: Eric Eric
Foto © Salvador de Almeida Fernandes, in 'Lisboa de Antigamente.' / Palácio Alarcão [c. 1952]
Odete
Odete é uma artista multidisciplinar que trabalha entre a escrita, a música, o teatro e as artes visuais. Afirma ser uma filha bastarda de Lúcifer, descendente da prática medieval de pactos satânicos para alterar o corpo sexuado de alguém. Tem pesquisado e trabalhado em torno da construção de pontos de ligação entre histórias «efeminadas», desde os castrati barrocos até aos dandies do século XIX.
Projectos
— V (Ou ‘Finalmente, a Casa Amarela’) — (2016)
— Anita Escorre Branco — (2018)